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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O interesse pelos estudos clássicos

"Aconselho-te, meu filho, a que empregues bem a juventude e aproveites na virtude e no estudo: a primeira par te distraíres e instruíres agradavelmente, o segundo par te dar saudáveis exemplos e ensinar-te. Quero que aprendas perfeitamente línguas, primeiraramente o grego (...); depois o latim; em seguida o hebreu, para conhecimento das Sagradas Escrituras e, por último o caldeu e o árabe, com o mesmo objectivo. Quanto ao grego, que formes o teu estilo à maneira de Platão; quanto ao latim, à de Cícero. Que não haja história que não conheças, para o que te ajudará a Cosmografia. Das artes liberais, Geometria, aritmética e Música, já te deram noções quando eras pequeno, na idade de cinco ou seis anos. Continua a estudá-las e estuda todas as regras de Astronomia. Põe de lado a Astrologia adivinhatória (...), como coisas tontas e vãs. De direito civil quero que saibas todos os textos e os confiras com a ajuda da Filosofia.
Depois examina cuidadosamente os livros os livros dos médicos gregos, árabes e latinos (...) e no estudo da Anatomia poderás adquirir conhecimento perfeito do organismo humano.
Durante algumas horas do dia deves também examinar os santos livros: primeiro, em grego, o Novo Testamento e as cartas dos Apóstolos; depois, em hebreu, o Antigo Testamento."
Rabelais, Gargântua e Pantagruel

Francesco Petrarca


Francesco Petrarca (1304-74). O seu amor pelos ideais clássicos fez dele um dos precursores da corrente humanista do século XV, a par de Dante e de Boccaccio.

A paixão pela Antiguidade Clássica

"As recordações, os gestos, os nomes ilustres dos autores antigos causam-me uma imensa alegria e considero de tal modo admirável o seu tesouro que, se o mundo pudesse saber, admirar-se-ia que eu tivesse tal prazer em conversar com os mortos e tão pouco com os vivos.
À tarde volto para casa e entro na minha biblioteca. Retiro o meu fato de todos os dias e visto-me como para comparecer nas cortes e diante dos reis. Vestido como deve ser, entro nas cortes antigas dos homens de outrora. Recebem-me com amizade junto deles (...). Sem falsa modéstia eu ouso conversar com eles e perguntar-lhes o motivo das suas acções e a sua humanidade é tão grande que me respondem e durante quatro longas horas não sinto qualquer aborrecimento, esqueço todas as misérias, não receio a pobreza, a morte já não me amedronta. Permaneço inteiramente com eles."
Francesco Petrarca, Cartas Familiares

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Erasmo de Roterdão

Erasmo (retrato do pintor alemão Holbein)

Erasmo, humanista holandês do século XVI, é defensor de uma reforma da Igreja e da sociedade baseada na mensagem cristã. A sua obra mais importante, o Elogio da Loucura, de linha reformista, é uma crítica da sociedade da época, incluindo a Igreja. A sua vocação pedagógica está patente na sua epistolografia, composta por mais de 300 cartas. Homem culto e cosmopolita, mantém correspondência com os principais génios da sua época.

Erasmo critica a sociedade

LV - (...) Há já algum tempo que desejava falar-vos dos reis e dos príncipes (...). Imaginai agora um desses príncipes, tal como frequentemente se vêem. Ignora as leis, é hostil ao bem comum e apenas se ocupa com os seus interesses; entrega-se aos prazeres, odeia o saber, a independência e a verdade, troça do interesse público e possui como única lei a cobiça e o egoísmo. (...)
LVI - Que direi agora dos cortesãos? Nada há de mais vil, servil e idiota, do que a maioria dessa gente que, apesar disso, pretendem em toda a parte o primeiro lugar. Há apenas um ponto em que são muito modestos. Contentam-se em usar o ouro, as pedrarias, a púrpura e os diversos distintivos da sabedoria e da virtude, mas deixam que sejam os outros a praticá-las. (...) Acotovelam-se para mais se aproximarem do rei, ambicionando apenas um colar mais pesado, que mostre ao mesmo tempo a sua força e a sua opulência.
LVII - Rivais dignos dos príncipes, os soberanos pontífices, os cardeais e os bispos chegam mesmo a ultrapassá-los. (...) Hoje em dia (...), apenas se preocupam em apascentar-se a si próprios, deixam o cuidado do rebanho a Cristo e aos que chamam irmãos e vigários. Esquecem que a palavra bispo significa trabalho, vigilância, solicitude. Servem-se apenas de tais qualidades quando pretendem receber dinheiro, abrindo então os olhos.

Erasmo de Roterdão, O Elogio da Loucura. 1511