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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Rua Nova dos Mercadores

"Passando ao longo da Rua Nova, onde abundam os gravadores, joalheiros, ourives, douradores (...), chega-se a outra chamada também Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta do que as outras ruas da cidade, adornada, dum lado e doutro com belos edifícios. Aqui se juntam todos os dias os comerciantes de quase todas as partes do mundo. (...) A Rua Nova pelo seu comprimento e largura, mas sobretudo por ser ornada de uma infinidade de lojas cheias de diversas mercadorias..."

Damião de Góis, Descrição de Lisboa

A Casa da Índia e Mina

"Ali se tratam os negócios da Índia e, por isso, lhe dão o nome de Casa da Índia. Contudo, a mim me parece que se deve chamar o grande centro comercial, empório de aromas, pérolas, rubis, esmeraldas e de outras pedras preciosas que de ano a ano nos são trazidas da Índia.

Damião de Góis, Lisboa de Quinhentos


A Casa da Índia foi uma instituição criada em Lisboa em 1503, que se ocupava da navegação e do comércio com o Oriente. A Casa da Índia administrava as exportações para a Índia, o desembarque de mercadorias orientais, a sua distribuição e venda. O monopólio régio efectuava-se em relação às principais especiarias e à exportação de certos produtos, mantendo-se a Coroa como a entidade reguladora do comércio em geral.

A Ribeira das Naus

A ribeira das naus (Museu da Cidade - Lisboa)

Século XVI:
"Ocupa a Ribeira das Naus um espaço vastíssimo (...). Constrói-se ali (...) essas grandes naus e galeões que abriram a navegação da Índia (...) Diz-se que a construção de cada uma dessas naus custa vinte mil cruzados
É admirável aqui, na verdade, a abundância de tudo o que é necessário para abastecer a armada, pois não falta grande quantidade de mastros, vergas e calabares muito ensebados e compridos; toda a sorte de pez e alcatrão; nem a arte de amolecer o ferro e o aço (...).
Paulo Duarte de Sande

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Viagem de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva ao Oriente

"El-Rei D. João II falou em grande segredo dizendo que esperava dele, Pero da Covilhã, um grande serviço; o qual serviço era que ele e outro companheiro, Afonso de Paiva, lhe haverem de saber onde acham a canela e as outras especiarias que daquelas partes iam a Veneza por terras de Mouros.E partindo a 7 de Maio de 1487 foram ter a Barcelona e dali a Nápoles. E por passarem como mercadores compraram muito mel e outras mercadorias e se foram ao Cairo. Afonso de Paiva foi para a Etiópia e Pero da Covilhã para a Índia. E foi a Calecut e a Goa e a Ormuz e tornou ao Cairo.E logo aí, Pero da Covilhã, escreveu como tinha descoberto a canela e a pimenta na cidade de Calecut e que o cravo vinha de fora, mas que tudo ali havia. E que se poderia bem navegar vindo à costa de Sofala e dali à costa de Calecut."

Padre Francisco Álvares, "Informação das Terras do Preste João"
O objectivo desta viagem era a recolha de informações sobre a navegação e o comércio no oceano Índico.

Bartolomeu Dias

De 1487 a 1488, comandando uma frota de duas caravelas e uma naveta com mantimentos, descobriu a passagem do Atlântico para o Índico, dobrando o cabo da Boa Esperança. Assinalando a viagem assentou três padrões, de que restam apenas fragmentos. Em 1497 acompanhou a armada de Vasco da Gama até Cabo Verde, rumando depois para o seu destino, que era a Mina. Em 1500, comandando uma caravela na armada de Pedro Álvares Cabral, morreu ao dobrar de novo o cabo que imortalizaria o seu nome. O seu navio e mais três naufragaram devido ao violento temporal.

Rota de Bartolomeu Dias

Rota seguida por Bartolomeu Dias, que permitiu dobrar
o Cabo da Boa Esperança (1488)

Passagem do Cabo da Boa Esperança (1488)

"Bartolomeu Dias deteve-se cinco dias na Angra das Voltas. Partidos daqui, o mau tempo os fez correr treze dias, e vieram demandar a terra do rumo de leste. Porém, vendo que alguns dias navegavam sem dar com ela, carregaram sobre o rumo norte com que vieram ter a uma angra a que chamam dos Vaqueiros. A gente vinha cansada e requereu que não passassem mais avante.Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada.

João de Barros, "Décadas da Asia"

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Viagem de descoberta do rio Zaire à Serra Parda (1485)

"Chegado Diogo Cão ao Congo foi recebido pelos da terra com muito prazer vendo os seus naturais que ele trouxera vivos e tão bem tratados os que levara, pedindo-lhes Diogo Cão em troca os portugueses que lá tinham ficado.El-Rei do Congo mandou a El-rei (D. João II) por seu embaixador Caçuta, homem muito importante que depois de ser cristão teve o nome de D. João Silva, e alguns moços, com um presente de muitos dentes de elefante e cousas de marfim lavradas e muitos panos de palma bem tecidos e com finas cores por em sua terra não haver outras coisas.E lhe pedia que lhe mandasse logo frades e clérigos e todas as coisas necessárias para ele e os seus receberem água do baptismo. E assim lhe mandasse pedreiros e carpinteiros para lhes fazerem igrejas [...] e também lhe mandasse lavradores para lhe domesticarem bois e lhe ensinarem a aproveitar a terra, e assim algumas mulheres para ensinarem as do seu reino a amassar o pão, porque ficaria muito contente que as coisas do seu reino se parecessem com as de Portugal. [...] E lhe pedia por mercê que certos moços pequenos do seu reino que lhe mandava os mandasse logo fazer cristãos e ensinar a ler e a escrever. [...] El-Rei D. João [...] estando em Beja, levou o embaixador Caçuta à pia baptismal para o fazer cristão e assim aos moços que com ele vieram, e a Rainha foi a madrinha, vestindo-se ela e El-Rei de festa.

"Garcia de Resende, "Crónica de D. João II"
Nesta segunda viagem Diogo Cão explorou a costa africana para sul do rio Zaire até à Serra Parda.

Os Padrões dos Descobrimentos

Diogo Cão colocando um Padrão na foz do rio Zaire
Diogo Cão introduziu a utilização dos padrões de pedra, em lugar das cruzes de madeira, para assinalar a presença portuguesa nas terras descobertas. Os padrões são pilares de pedra com uma cruz em cima e com as armas reais gravadas.

Viagem e descoberta do Rio Zaire

"[...] D. João II, desejando o descobrimento da India e Guiné que o Infante D. Henrique seu tio, primeiro começou, mandou a sua frota à dita costa, e por capitão-mor dela mandou Diogo Cão, cavaleiro de sua casa [...][...] O qual indo pela dita costa foi ter ao rio Congo que é um dos grandes que no mundo se sabe de água doce [...] Diogo Cão determinou mandar ao rei da terra um presente e mandou-lhe dizer que a armada era do rei de Portugal que com todo o mundo tinha paz e amizade [...] Chegaram ao rei do Congo e foram por ele recebidos com muita honra muito prazer e alegria e espanto e folgou tanto de os ver e perguntou-lhes pelas coisas de cá que os não podia despedir de si e deixá-los tornar à frota.E pela muita tardança sua pareceu ao capitão que deviam estar cativos ou mortos. E vendo que os negros de terra se fiavam dele e entravam já nos navios, determinou não esperar os que mandara, e partir-se com alguns daqueles negros, e assim fez. E se veio com eles para Portugal, não os trazendo como cativos mas com fundamento que, depois de aprenderem a língua e os costumes nossos, tornariam ao Congo ".

Garcia de Resende, "Crónica de D. João II"

A Costa da Mina

Costa da Mina (1546)
1482: ano da fundação da fortaleza de S. Jorge da Mina.
Em 1481 realizou-se uma viagem de exploração à Mina, o objectivo era fundar a Fortaleza de S. Jorge da Mina. O primeiro feitor da Mina foi Diogo de Azambuja, cavaleiro da Ordem de Avis. O rei D. João II encarregou-o de edificar o Castelo-feitoria de S. Jorge da Mina (1481-1482) que ficou a administrar até 1484.

domingo, 14 de outubro de 2007

Descoberta das Ilhas de Cabo Verde

"Neste mesmo tempo [...] se descobriram as ilhas a que hora chamamos de Cabo Verde, por um António de Nolle, genovês de nação e homem nobre, que [...] veio a este reino com duas naus e um barinel, em companhia do qual vinha um [...] seu irmão e um [...] seu sobrinho. Aos quais o infante deu licença que fossem descobrir e do dia que partiram da cidade de Lisboa a dezasseis dias foram ter à ilha de Maio; à qual puseram este nome porque a viram em tal dia. E [...] descobriram as outras [...] que por todas são dez, chamadas por comum nome ilhas de Cabo Verde por estarem ao poente dele por distância de cem léguas [...]."
João de Barros, "Décadas da Ásia"
As ilhas de Cabo Verde, descobertas por Luís Cadamosto, Diogo Gomes e António Noli, entre 1456 e 1460, foram divididas em capitanias. O povoamento, entregue aos capitães-donatários, foi feito predominantemen-te com escravos, provenientes da costa africana, e mouros cativos.
A exploração económica teve como base a cultura da cana-de-açúcar, do algodão, do milho e a criação de gado caprino.

Feitoria de Arguim

Feitoria de Arguim representada no
Atlas de Sebastião Lopes, séc. XVI.

Fortaleza de Arguim

"O Senhor Infante fez nesta Ilha de Arguim um contrato por dez anos deste modo: que ninguém pudesse entrar no golfo de Arguim para comerciar com os árabes [...] o qual Infante tem uma feitoria na dita ilha e feitores que compram e vendem àqueles árabes [...] dando-lhes diversas mercadorias como são panos [...] prata[...] e sobretudo trigo [...] e recebem em troca negros que os árabes trazem da Nigéria, e ouro; de modo que este senhor Infante faz actualmente trabalhar em uma fortaleza da dita ilha para conservar este comércio para sempre.E por esta razão, todos os anos vão e vêm caravelas de Portugal à ilha de Arguim [...] de modo que se trazem para Portugal setecentos e oitocentos escravos."

Cadamosto, "Navegação Primeira de Uso di Mare"(Adaptado)

Povoamento dos Açores (1439)

"A quantos esta carta virem fazemos saber que o Infante D. Henrique, meu tio, nos enviou dizer que ele mandara lançar ovelhas nas ilhas dos Açores e que, se nos aprouvesse, as mandaria povoar. E porque a nós isso apraz, lhe damos a nós licença que as mande povoar.(...)Dada em a cidade de Lisboa a 2 dias do mês de Julho do ano de 1439 do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo."
Carta de D. Afonso V a Gonçalo Velho Cabral, fidalgo da casa do Infante, confiando-lhe o povoamento do Arquipélago dos Açores.
"Chegando à primeira lançaram ali muitos animais tais como porcos, vacas, ovelhas, etc.Foram depois à ilha de S. Miguel, lançaram aí igualmente porcos, vacas, ovelhas, dos quais há aí uma multidão, de modo que todos os anos daí trazem gado para Portugal.Igualmente há aí tanta quantidade de trigo que todos os anos ali vão navios e trazem trigo para Portugal."
Diogo Gomes, "A Relação dos Descobrimentos da Guiné e das Ilhas"(Adaptado)

Descoberta do Rio do Ouro e Pedra da Galé (1436)

"E navegando por sua viagem chegou a [...] uma foz como se fosse de rio.[...] E porque entre as coisas que Afonso Baldaia levava assim eram dois cavalos [...] fê-los logo pôr em terra e mandou aos moços que cavalgassem naqueles cavalos e fossem por terra quanto pudessem [...] Partiram com grande esforço, seguindo ao longo daquele rio por espaço de sete léguas, onde acharam 19 homens todos juntos [...] mas aquela gente não conhecida acolheu-se a uns rochedos onde estiveram pelejando com os moços por bom espaço [...] até que o Sol começou a mostrar os sinais da noite, por cuja razão se tomaram a seu navio."

Gomes Eanes de Zurara, "Crónica da Guiné"(Adaptado)

Açores

Representação do arquipélago dos Açores,
no "Libro di Benedetto Bordone...", Veneza, 1528.

Descoberta dos Açores

"[...] Viram terra a ocidente além do cabo Finisterra uma trezentas léguas que eram ilhas, entraram na primeira desabitada e acharam muitos açores e muitas árvores; e foram à segunda que era chamada ilha de S. Miguel, também despovoada e com muitas árvores e açores, onde além disto encontraram muitas águas quentes naturais de enxofre. Daí viram outra ilha agora chamada Terceira [...] cheia de arvoredos e muitos açores. E descobriram ali perto outra ilha, agora chamada Faial. E imediatamente outra ilha a duas léguas da ilha do Faial, agora chamada ilha do Pico; esta ilha é um monte de sete léguas de altura [...] Os navios voltaram a Portugal, anunciando a notícia ao senhor D. Henrique que se alegrou muito."

Diogo Gomes, "A Relação dos Descobrimentos da Guiné e das Ilhas"(Adaptado)

Madeira

Desenho da ilha da Madeira no chamado
"Manuscrito Valentim Fernandes", (c. 1506-1510).

sábado, 13 de outubro de 2007

A Ilha de S. Tomé

Habitam na ilha de S.Tomé muitos comerciantes portugueses, castelhanos, franceses e genoveses […]. E todos têm mulher e filhos e às vezes acontece que, morrendo-lhes as mulheres brancas, as tomam negras […]. O principal negócio dos habitantes é fabricar açúcar e vendê-lo aos navios que todos os anos o vêm buscar. […] Cada habitante compra escravos negros, com as suas negras, da Guiné, Benim ou Congo e põe estes casais a lavrar a terra, para plantar e fazer o açúcar. E há homens ricos que possuem 150, 200 e até 300 escravos, os quais têm obrigação de trabalhar toda a semana para o seu senhor, excepto aos sábados, em que trabalham no cultivo dos víveres de que se alimentam.

Navegação de Lisboa à ilha de S.Tomé. C. 1540